Publicado por: Éverth Oliveira | 24 de Junho de 2010

O grande escândalo da nossa fé

As palavras do Santo Padre são realmente muito proveitosas. Destaco aqui trechos do diálogo que teve com os sacerdotes na Praça de São Pedro, no último dia 10, por ocasião do encerramento do Ano Sacerdotal. O Papa discorre sobre o celibato na vida sacerdotal e observa o choque existente entre esse belo modelo de vida e o estilo de relacionamento incentivado pela modernidade.

“[O] centro da nossa vida realmente deve ser a celebração diária da santa eucaristia; e aqui são centrais as palavras da consagração: “Isto é o meu corpo, este é o meu sangue”. Isto é, falamos in persona Christi. Cristo nos permite usar seu “eu”, falamos no “eu” de Cristo, Cristo nos “atrai para si” e nos permite unir-nos, nos une com o seu “eu”. E assim, através desta ação, o fato de que ele nos “atrai” a si, de modo que o nosso “eu” se une ao seu, realiza a permanência, a unicidade de seu sacerdócio: assim ele é realmente sempre o único sacerdote, e contudo muito presente no mundo, porque nos “atrai” a si mesmo, tornando assim presente a sua missão sacerdotal. Isto quer dizer que somos “atraídos” ao Deus de Cristo: é esta união com seu “eu” que se realiza nas suas palavras da consagração.”

“Também no “eu te absolvo” – porque nenhum de nós poderia absolver dos pecados – é o “eu” de Cristo, de Deus, o único que pode absolver. Esta unificação de seu “eu” com o nosso implica que somos “atraídos” também à sua realidade de Ressuscitado, vamos para a vida plena da ressurreição, da qual Jesus fala aos saduceus em Mateus, capítulo 22: é uma vida “nova”, na qual já estamos para além do matrimônio (cf. Mt 22, 23-32). É importante que nos deixemos penetrar sempre de novo por esta identificação do “eu” de Cristo conosco, deste ser “jogados” no mundo da ressurreição.”

“Neste sentido, o celibato é uma antecipação. Transcendemos este tempo e vamos adiante, e assim nos “jogamos” a nós mesmos e ao nosso tempo no mundo da ressurreição, na novidade de Cristo, na nova e verdadeira vida. Portanto, o celibato é uma antecipação feita possível pela graça do Senhor que nos “atrai” a si, ao mundo da ressurreição; nos convida sempre de novo a nos transcendermos a nós mesmos, a transcender este presente, para o verdadeiro presente do futuro, que se faz presente hoje.”

“E aqui nos encontramos em um ponto muito importante. Um grande problema do cristianismo do mundo de hoje é que não se pensa mais no futuro de Deus: parece suficiente apenas o presente deste mundo. Queremos ter só este mundo, viver só neste mundo. Assim, fechamos as portas à verdadeira grandeza da nossa existência. O sentido do celibato como antecipação do futuro é precisamente abrir estas portas, tornar o mundo maior, mostrar a realidade do futuro que deve ser vivido por nós já como presente. Viver, portanto, testemunhando a fé: nós cremos verdadeiramente que Deus existe, que Deus entra na minha vida, que posso assentar a minha vida em Cristo, na vida futura.”

(…)

“É verdade que para o mundo agnóstico, o mundo em que Deus não tem entrada, o celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade. Com a vida escatológica do celibato, o mundo futuro de Deus entra nas realidades de nosso tempo. E isso deveria desaparecer.”

“Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode ser surpreendente, em um momento em que não casar está cada vez mais em moda. Mas este não casar é uma coisa totalmente, fundamentalmente, diferente do celibato, porque o não casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, em não aceitar nenhum vínculo definitivo, em ter a vida em todo o momento com plena autonomia, decidir em todo o momento como fazer, o que tomar da vida; e, portanto, um “não” ao vínculo, um “não” ao definitivo, um ter a vida só para si mesmo. Ao passo que o celibato é exatamente o contrário: é um “sim” definitivo, é um entregar-se nas mãos de Deus, colocar-se nas mãos do Senhor, em seu “eu”, e, portanto, é um ato de fidelidade e de confiança, um ato que supõe também a fidelidade do matrimônio; é precisamente o contrário deste “não”, desta autonomia que não quer se obrigar, que não quer contrair vínculos; é precisamente o “sim” definitivo que supõe, confirma o “sim” definitivo do matrimônio. E este matrimônio é a forma bíblica, a forma natural do ser homem e mulher, fundamento da grande cultura cristã, de grandes culturas do mundo. E se isso desaparecer, será destruída a raiz de nossa cultura.”

“Por isso, o celibato confirma o “sim” do matrimônio com seu “sim” ao mundo futuro, e assim queremos seguir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que põe toda a experiência em Deus. Sabemos que junto com este escândalo, que o mundo não quer ver, existem também os escândalos secundários de nossas insuficiências, de nossos pecados, que obscurecem o verdadeiro e grande escândalo e fazem pensar: “Mas eles realmente não vivem sobre o fundamento de Deus”. Mas há tanta fidelidade! O celibato, precisamente as críticas o mostram, é um grande sinal da fé, da presença de Deus no mundo.”

“Rezemos ao Senhor para que nos ajude a nos livrar dos escândalos secundários, para que torne presente o grande escândalo da nossa fé: a confiança, a força de nossa vida, que se funda em Deus e em Cristo Jesus.”

– Papa Bento XVI, diálogo com os sacerdotes
via Instituto Humanitas Unisinos

O sacerdote deve ser esse sinal de contradição, do qual fala o Santo Padre. Só por agir na pessoa de Cristo já é motivo de escândalo. A sociedade contemporânea não suporta a ideia de ter que confiar no homem para mediar suas relações com Deus. Essa posição de “autonomia” – que é fruto de um pensamento egoísta, estimulador da auto-suficiência – foi incentivada primeiramente pelo protestantismo e, daí em diante, as pessoas começaram a buscar uma religião intimista, sem exigência de compromissos. “O homem deveria se relacionar diretamente com Deus”. Com esse pensamento, o homem acabou deixando de estabelecer uma relação com Deus e, pouco a pouco, foi cultuando seu próprio ego. O ser humano passou a dialogar com a sua consciência e a consultar tão somente os seus juízos, de modo que foi criando uma moralidade individual e independente. Nessa tentativa de consultar a Deus sem a necessidade de mediadores o que acontece é que o homem acaba dando ouvido às suas paixões e aquele pensamento religioso tradicional que fortalece verdadeiramente a alma é esquecido e desprezado.

É preciso restaurar a beleza da transcendência na nossa fé. Hoje muitos deixaram de crer na ação de Cristo pelo sacerdote justamente porque passaram a confiar mais nas palavras de fundadores de igrejas pentecostais do que nas palavras do próprio Jesus: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20, 22-23). Ora, Cristo diz isso aos apóstolos; dá a eles o poder de perdoar os pecados. Ele poderia muito bem dizer: “Vá, meu filho, entre no seu quarto, tranque a porta, se ajoelhe, ore e peça perdão”, mas não foi isso que ele fez. Ele instituiu um Sacramento e confirmou, pela Igreja, Sua necessidade.

Essa fidelidade da Igreja às exortações de Cristo continua sendo, no entanto, motivo de escândalo. Primeiro pelo que já foi dito: o egoísmo é hoje o guia dos relacionamentos humanos. Segundo, porque o homem moderno não consegue pensar na manutenção e na fidelidade a um vínculo definitivo; o que ele quer é viver um prazer desordenado, sem limites. E o modelo de vida celibatário é um duro golpe contra esse estilo de vida promíscuo. É escandaloso pensar que, em pleno século XXI, ainda tenha pessoas que se dediquem a Deus de modo a renunciarem completamente ao ato sexual!

Por que esse escândalo? “Um grande problema do cristianismo do mundo de hoje é que não se pensa mais no futuro de Deus: parece suficiente apenas o presente deste mundo”. O homem dá mais ouvidos ao carpe diem que às exortações de vigilância presentes na Sagrada Escritura. Parece que a vida eterna foi deixada de lado pelos nossos cristãos. É preciso aproveitar essa vida ao máximo, é preciso ter muito prazer agora porque não sabemos quando vamos morrer e… O que será desse ser humano na eternidade? O que será desse homem que não dá ouvidos a Deus e se compraz na prática da injustiça, da impiedade, do adultério, da luxúria, da avareza e da inveja? O que será desse homem que se preocupou tanto com o pecado social mas se esqueceu de se curar de seus pecados individuais? O que será desse homem que praticou tanto a filantropia em vida, mas, por outro lado, se esqueceu de permanecer em estado de graça?

Resplandeça em nós o grande escândalo da nossa fé. Resplandeça nos sacerdotes o escândalo de serem alter Christus, de viverem essa renúncia, essa doação totalmente por amor ao Reino dos céus. “Queremos seguir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que põe toda a experiência em Deus”. Que a Virgem Maria, Rainha concebida sem pecado original, sustente a fidelidade de nossos bispos, padres e ministros, para que se assemelhem cada vez mais a Nosso Senhor, sendo santos, assim como Ele o é.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Post original em: Ecclesia Una


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