Publicado por: jmaurojr | 1 de Maio de 2010

História da Igreja Católica 4 – “Por que me persegues?”

Para ler a terceira parte clique aqui

Saulo, Schaoul, natural de Tarso da Cilícia, filho da tribo de Benjamim, a mesma do rei David. Filho de comerciantes ricos, cidadão romano, ligado à seita dos fariseus, aluno do glorioso rabino Gamaliel, zeloso defensor da Torá.

Depois de oito dias atravessando a estrada arenosa que ligava Jerusalém a Damasco, o coração cheio de fúria, inflamado pelo fanatismo religioso, Saulo estava cansado mas prosseguia com obstinação. Era mais ou menos meio-dia.

Subitamente, uma luz muito forte o envolveu e o fez cair por terra. Enquanto tentava compreender o que estava acontecendo, ouviu uma voz: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Assustado, perguntou: “Quem és, Senhor?” A voz lhe respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues”. “Senhor, que queres que eu faça?” A voz disse: “Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer”.

Saulo, o perseguidor, converteu-se no grande arauto do cristianismo, um caso único. Alguém que não chegou a conhecer Jesus pessoalmente, que não fazia parte dos doze, mas que se lançou na difícil missão de evangelizar os povos pagãos, percebendo que não era necessário passar pelo judaísmo para se tornar discípulo de Jesus.

Embora Pedro já tivesse aberto a porta da Igreja para os gentios, Saulo, ou Paulo, merece sem dúvida o título de Apóstolo das Gentes.

Em 44, achava-se na cidade de Antioquia (foi lá que pela primeira vez os discípulos de Jesus receberam o nome de “cristãos”) com Barnabé. Ao longo de um ano trabalharam juntos. Na primavera de 45, tomaram um barco para a ilha de Chipre e depois seguiram para a Panfília, percorrendo, em seguida, a Licaônia. Paulo entrava nas sinagogas, pregava, procurava demonstrar que Jesus era o Messias esperado usando as Escrituras. Depois, voltava-se para os pagãos e anunciava-lhes a Boa-Nova. Sempre encontrou muitos obstáculos no seu ministério, principalmente a oposição de seus irmãos de raça.

Quando voltou para Antioquia entrou em confronto com os judaizantes, que impunham o rito da circuncisão como pré-requisito para seguir Jesus. A controvérsia é levada até Jerusalém, diante de Pedro, Tiago e João (o famoso Concílio de Jerusalém, cerca de 49), os quais aprovam o procedimento de Paulo. Para salvar-se o que importa não é a circuncisão, mas a fé em Cristo que opera pela caridade. Isto selou o rompimento do cristianismo com o judaísmo.

Em 49, Paulo sai de Antioquia para uma viagem de três anos. Deixa Barnabé e toma Silas como companheiro. Na cidade de Listra, Paulo e Silas encontram Timóteo e seguem atravessando a Frígia e a Galácia, alcançando a Macedônia. Em Filipos são presos. Em Tessalônica são acusados de adversários do imperador pelos judeus, porque diziam que Jesus era rei. Em Beréia, a sinagoga escuta atentamente a pregação de Paulo, comparando suas palavras com o que havia nas Escrituras.

Quando entra em Atenas, fica impressionado com a enorme quantidade de ídolos e monumentos aos deuses. Discute com os atenienses na ágora, tentando usar um pouco da linguagem da filosofia para lhes falar de Jesus. Quando trata da cruz e da ressurreição, no entanto, é ridicularizado. Crer que um escravo crucificado saiu de seu túmulo era demais para a sofisticação intelectual grega.

Logo a seguir desce para Corinto, cidade portuária, na qual existem dois escravos para cada homem livre. Lá, onde trabalha muita gente vinda do Oriente, o acolhimento do Evangelho é maior do que em Atenas. Como fabricante de tendas, Paulo fica na cidade por dezoito meses. Neste período envia suas duas cartas aos Tessalonicenses. Após uma breve escala em Éfeso, Paulo volta para a Síria pelo mar.

Em 53, Paulo realiza sua terceira viagem missionária, a mais demorada de todas. Escolhe Éfeso como base de ação (54-57), de onde envia a epístola aos Gálatas e a primeira epístola aos Coríntios. Em Corinto estavam surgindo divisões que enfraqueciam seriamente a comunidade.

Um fabricante de estatuetas de Ártemis provoca um grande tumulto em Éfeso, contra os cristãos, o que obriga Paulo a partir. O apóstolo segue para a Macedônia, onde escreve a segunda epístola aos Coríntios. Fica em Corinto novamente e de lá redige a carta aos Romanos, pedindo ajuda para efetuar uma viagem evangelizadora até a Espanha.

Antes disso é preciso ir até Jerusalém levar a coleta feita no Oriente em favor da Igreja-mãe. Saindo de Filipos, ele passa por Trôade e depois chega a Mileto. Aos efésios, que foram encontrar-se com ele, confidencia que não espera mais vê-los.

Em Cesaréia tentam detê-lo. No ano de 58, em Pentecostes, encontra-se na cidade santa. Quase linchado, é preso. Quando vai ser flagelado, apela para sua condição de cidadão romano, e faz com que o enviem a Cesaréia, onde mora o procurador Félix. A questão se arrasta por dois anos. O sucessor de Félix, Festo, cansado de ouvir os apelos de Paulo a César, envia-o para Roma.

Quando finalmente chega à capital do Império, passa dois anos em liberdade vigiada, correspondendo-se com as comunidades de Colossas, Éfeso e Filipos. Neste ponto se encerra a narrativa dos Atos dos Apóstolos.

As epístolas a Tito e a Timóteo são de um segundo cativeiro, na época da perseguição de Nero.


Responses

  1. Uma qualidade essencial a todo desportista é a capacidade de resistência, tanto nos duros treinamentos quanto na hora da competição. Não lhe é permitido, ao atleta, jogar a toalha no meio da competição. Ou combate. Quem não cumpre este requisito não está capacitado a ser atleta, pois é necessário que se tenha tenacidade. Perseverança há que se ter, pois que é o prêmio dos que triunfam.
    Paulo é perseverante em seu trabalho incansável de evangelização, não se desvia nem para a direita nem para a esquerda, pois tem uma meta absoluta que está acima de todo e qualquer valor: -” O que a mim me importa é que eu termine minha corrida” – Por isso: – “seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é prosseguir”. – Decididamente. Nada detém Paulo, nem mesmo o saber que corre risco de vida e que poderia ser mal interpretado ou até mesmo rejetado quando organiza a coleta em favor da comunidade de Jerusalém.
    Paulo, atleta de Cristo, proclama destemidamente o Evangelho da graça e paga o preço da perseverança, e recebe o prêmio: – ” …combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça que o Senhor me dará…” – Paulo, sabendo aproximar-se o momento definitivo de sua vida, afirma: – “Estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação aproxima-se”. – Como sacrifício voluntário, como cerdote e vítima, o Apóstolo das gentes se oferece a Deus. Sua corrida cheia de obstáculos é, então, coroada por seu martírio; entrega-se ao sacrifício inteiramente unido a Cristo. Toda a sua vida levou o selo dos sacrifícios. Seu sangue, como o de outros apóstolos e mártires da igreja, exala o perfume dos sacrifícios oferecidos inteiramente a Deus.
    Trinta anos antes, nas portas de Jerusalém, Paulo de Tarso havia declarado guerra contra Jesus de Nazaré, a quem considerava maldito por haver sido crucificado. Iniciou frenética corrida para alcançá-lo, mas ele é quem foi alcançado de maneira inesperada e atirado do cavalo num só golpe, às portas de Damasco. Como todo vencido, deveria pagar o preço dos perdedores, entregar a própria vida nas mãos de quem o derrotara. A partir desse dia, um dos mais felizes do cristianismo, o perseguidor da Igreja dedicou sua existência a uma nova corrida: – Dar a salvação gratuita de Deus através do Nome sobre todo nome pelo qual fomos e somos salvos. E fez isso movido por imenso amor daquele que havia já dado sua vida por amor dele também, e morrido num madeiro a sua causa.
    Às portas de Roma,o antigo perseguidor oferece o holocausto total, derramando seu sangue a causa daquele que o havia seduzido de maneira tão abrupta naquele meio-dia. Agora tornam a encontrar-se, face a face, e juntos estarão por toda a eternidade.
    ” Para mim o morrer é lucro”.


Categorias

%d bloggers like this: