Publicado por: gabrielresgala | 29 de Dezembro de 2009

“Defendendo” idéias: aprendamos com o papa!

Penso que em nossos dias talvez não haja tema mais emblemático para nós, católicos, que a Defesa da Vida em suas fases extremas (pré-nascimento e ocaso). Parece ser o grande dilema, o grande “embate” com o mundo que enfrentamos nesta época. Há, com certeza, outras questões seríssimas tanto internas à Igreja quanto referentes ao mundo em geral, que merecem toda nossa atenção; mas creio que em nenhuma delas somos tão cobrados a prestar contribuição, digamos, mais incisiva, quanto naquelas em que o mundo parece não só contrário a nós, mas sobretudo um insistente desafiador: as discussões bioéticas.

Talvez porque nossas posições nesses assuntos gerem consequências bem mais abrangentes que nosso “mundo” particular, muitas vezes enfrentamos a ira de quem pensa diferente. E, muitas vezes, somos nós que nos vemos irados diante de argumentações que usam de tudo para tentar questionar o que, para nós, é óbvio: o direito à vida deve ser preservado antes de qualquer outro – sobretudo o direito à vida inocente. Como relativizar isso? Como não berrar, como João Batista no deserto, botando o dedo em riste, e se preciso derrubar as mesas, fazer arruaça, expulsar os vendilhões do templo?…

Pois esses dias li um livro que me chamou a atenção neste ponto. Trata-se da transcrição de um debate ocorrido em 2000 entre um filósofo ateu chamado Paolo Flores d’Arcais e ninguém mais, ninguém menos que o cardeal Joseph Ratzinger, futuro papa Bento XVI. O título não poderia ser mais provocador: “Deus existe?” (Ed. Planeta, 2009). Sim, um ateu convicto e um Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé discutindo a existência de Deus. Imagine uma discussão apaixonada, gargantas inflamadas, o debatedor desesperado tentando botar ordem nos palestrantes e na platéia… Imaginou? Pois é, esqueça. Não foi nada disso.

Diga-se, de passagem, que o tema praticamente não foi abordado em sua forma objetiva – mas, mesmo um não tentando provar pro outro se existe ou não algo “além”, em determinados momentos a coisa poderia mesmo ter esquentado – e o que me chamou a atenção foi justamente as falas do cardeal Ratzinger (estranho não chamá-lo de papa, né…), que conseguiu ser tão sereno quanto forte, sem perder por um instante o equilíbrio. O opositor, Flores d’Arcais, até que demonstrou sensatez em vários momentos, mas em alguns pontos não resistiu a fazer suas provocações – ao que foi respondido com uma elegância encantadora.

Tentarei, abaixo, narrar alguns trechos do debate, em que se toca no ponto da Defesa da Vida (os grifos são meus). Procure ler com carinho, meditando não só sobre o conteúdo, mas sobre a forma leve como nosso então futuro papa consegue abordar questões tão caras para nós…

A conversa estava no campo filosófico; ao questionar a existência de uma “Lei Natural”, algo que seria intrínseco e universal a toda a humanidade, Flores d’Arcais cita então a questão do aborto. Seu principal argumento a favor de sua licitude era de que haviam outras teorias consistentes e lógicas sobre a questão além da católica, e que portanto não poder-se-ia eleger um consenso como abrangente a toda a sociedade. Ao responder, Ratzinger chamou a atenção, primeiramente, para o fato de que não é a decisão da maioria que dá legitimidade determinados valores, citando o nazismo, realidade que conheceu de perto: “nós, os alemães, conhecemos um exemplo muito forte, (…) nós decidimos que existiam vidas que não tinham direito de viver e, portanto, pretendemos o direito de “purificar” o mundo dessas vidas indignas, para criar a raça pura e o homem superior do futuro”. As atrocidades dessa época deram base para a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, superior aos valores particulares decididos por cada país, mesmo se forem contrários – e isto foi “um grande avanço da humanidade”, salientou.

Ele ressalta que a questão de como verificar quais seriam esses direitos realmente invioláveis, embora difícil e passível de erros, é não só importante, mas essencial. E falou de Santo Agostinho, citado por Flores d’Arcais e tão lembrado por quem defende o dissenso sobre a questão: “Para Agostinho, e espero que para todos nós, é absolutamente certo que se alguém é homem, é intocável. Depois vem a outra questão, que é: a partir de que momento se é homem. O fato de que a ciência aristotélica – que contesta que se pode falar de alma a partir de três ou seis meses [de gestação] – não é correta, hoje todos nós sabemos. E segundo meus conhecimentos de biologia, na realidade esse ser leva consigo, desde o primeiro momento, um programa completo do ser humano, que mais tarde se desenvolve. Mas o programa já está lá, e por isso se pode falar de um indivíduo. E nós dissemos… nós não podemos dogmatizar um resultado das ciências naturais, e por isso dissemos que naturalmente esperamos pesquisas ulteriores; não queremos dogmatizar tudo aquilo que na atualidade parece ser a posição mais convincente, mais documentada.

Mas dissemos: mesmo que essas posições não fossem corretas, pelo menos existe uma hipótese fundamentada, uma probabilidade fundamentada, ou, pelo menos, uma possibilidade de que poderia se tratar já de um ser humano. E essa probabilidade, que não é certeza e sim probabilidade, já não nos permite matar esse ser, porque, provavelmente pelo menos, é um ser humano. Essa é a nossa lógica sobre esta questão.”

Após esta fala, nem d’Arcais nem Gad Lerner, o moderador, voltaram a questionar a questão do início da vida, nem a lógica da preservação da vida pela “probabilidade fundamentada” – ainda que não dogmatizada – do seu início, pelo simples “risco” de estar-se cometendo um homicídio. Se dispuseram a discutir mais sobre a Lei Natural e a moral em si. Mas, ao final, o filósofo chega a afirmar, ao retomar seu argumento de que para boa parte da sociedade o aborto não é um homicídio, que considera imoral quem sustenta tal posição. E o cardeal Ratzinger, em sua vez, demonstra mais uma vez sua superioridade de argumentação sem perder a humildade da própria fala:

“E gostaria de dizer mais uma palavra. Flores d’Arcais disse que quem considera o aborto um homicídio comete um ato imoral. Não aceito isso. Eu posso entender suas hesitações acerca dessa questão, mas afirmar que existe per se uma evidência de que se trata de um ser humano muito fraco, dependente, e que, portanto, matá-lo é matar um homem, parece-me que dizer isso – apelando assim à consciência, à reflexão do outro – não pode ser caracterizado como imoral”.

Pois é. Ao ler isso tudo, impossível não pensar como eu, tantas vezes “ardenho defensor da verdade”, tenho, ainda, muito o que aprender, com um homem tão sábio. Aprender a ser mais humilde, a administrar minha “autoridade”, por maior que ela seja em determinados assuntos… E saber a hora realmente certa de reagir com ira, como fez Jesus – e olha que, perto dEle, minha autoridade é infinitamente insignificante. Se é que ela existe…


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